18.4.17

LOGUNEdé


O Império dos Rios e das Matas | Parte UM

Umbanda não são Candomblés.
Passado décadas de culto, o homem parece não ter aprendido que está lidando com a pluralidade de uma religião tão antiga quanto o Deus Tempo que cultua.
Falar de Candomblé é contar a história das tantas Áfricas, que cabem num só continente.   
Nagôs Yorubas, Ketus, Xambá e Batuque, os filhos do Jeje, Angolanos, nações que reinam sob o governo de seus Orixás e que vieram dar nestas terras.
Desde lá, cada casa tem seu rito, sua linha de trabalho, seu entendimento do Sagrado.
Funciona no acordo de seus preceitos enraizados, no tempo dos séculos de linhagem, considerando suas múltiplas tribos e reinados, em palavras sussurradas por seus tantos sacerdotes, transmitidos por um rio de fontes estrangeiras, que sofreram a tradução de seu sopro divino, de sua fala com os Deuses, até serem cantadas em nossas roças e terreiros, erguerem aqui seus Congas.
Esta introdução caberia numa curta linha, dita de maneira mais direta. O nome é Candomblé, religião que abriga muitas tradições, como fosse um coletivo alinhavado pelo DNA de alguns deuses e deusas.
Alcançado este entendimento de que não há uniformidade maior que seus regentes divinos, cabe entender que cultuar o Santo é caminho de sorte, destino impar, porque o toque do atabaque, dialeto, liturgia, tudo é daquele lugar, de mais nenhum no mundo. Podemos assim, honrar as diferenças.
Tomar este caminho com a sede da alma é outro tanto, uma escolha que nem sempre é nossa, mas isto é conversa de quem sabe que parte dessa vida é vivida do lado de lá, onde nem sempre os olhos alcançam.
Ao nos manifestar neste mundo, somos abrigados por nosso Santo de Cabeça.
Orixá ou Obirinxá, que reinará sobre nós, em nossos dias na Terra.
Um dia converso sobre a Umbanda, nesse agora, minha prosa é outra, é para falar sobre o Príncipe do Candomblé.
Logunede é dito menino, talvez nenhuma lenda o tenha colocado em uma roupagem mais adulta. E encantado ali, ele permaneça numa estática existência ou então o homem moderno não entenda a natureza de uma inteligência soberana á sua, tudo se torna mais simples, sendo assim, ele descrito.
Logun herda características de seus pais.
De Erinlê ganha o dom da caça, verbo que no contexto de uma vida mergulhada na natureza significa a conquista, a habilidade de foco, a flecha que se lança na intenção de alimentar o corpo e a alma.
Seu pai, no entanto, é cercado de lendas em que se fere ou mata, por engano, com seu próprio instrumento, sua arma.
Digo isso, para enfatizar que o tesouro dado ao seu filho, tem poder sobre todas formas de vida, nunca é falado que a caça é ofício que leva consigo a morte.
Em um dos contos, o menino que quase se afogou num rio, salvo, recebe de Orunmilá a missão de proteger os pescadores.
Um ser com poderes de quem fica e quem parte, nas águas e nas florestas.   
Sendo desta maneira, Logun se torna um caçador, que enfeitiça com sua beleza.
Seu pai, encantado, se apaixona e os dois Odés, seguem caçando os pássaros na mata, menos os das feiticeiras.
Distraído, Oxóssi acerta o alvo que não podia, lá Mi, enfeitiçam os dois amantes com a cegueira. Um caminho que trilha pela cachoeiras de Oxum e termina nas profundezas da água do mar de Iemanjá. 
É comum entre uma pesquisa e outra, autores, negando qualquer traço de homo ou bissexualidade em Logum. Mencionar mesmo traço em Oxossi é procurar querela.
Mas as justificativas, sempre são traiçoeiras, soam mais como uma dificuldade em lidar com riqueza da natureza. 
Como ela se manifesta de maneira mais caleidoscópica, que propriamente um erguer de bandeiras.
Nunca li justificativas para negar a orientação sexual de nenhum orixá, quando héteros. 
Esclarecimentos, apenas quando é abordado este tabu de nossa época histórica. Ainda sofremos da dificuldade de lidar a a identidade de gêneros ou orientações de nós mesmos, que dirá importar isso para nosso berço cósmico?!
E mais uma vez, a rasura na compreensão que uma deidade está acima dos limites que rotulam nossa sexualidade e que bem provável, o amor vivido entre Oxóssi e Logun, não signifique a paleta de possibilidade de um amor entre pessoas, neste plano.
Se este princípio não é entendido, cabe o julgamento de cada qual se esta lenda, tão legítima quanto às outras, deve permanecer viva ou ser varrida para baixo da Eni, a esteira de palha em que dormimos, nosso sonho acordado.
Aqui cabe uma pausa, para que eu me apresente, pelo menos uma pequena parte de meus interesses. Sou um pesquisador.
Há quase uma década estudo com paixão, o que sub intitulei O Sagrado Masculino, um projeto batizado Anatomia do Falo.
Propondo neste plano a analise do erotismo e do sexo no mundo de nós, homens.
E na contra-mão do que popularmente é celebrado, somos seres complexos, é preciso uma escamação para se chegar em uma das interpretações do que realmente é mostrado.
Em síntese, é vasta a gama de leituras que pode brotar em um relacionamento seja hetero, bi ou homo, desse modo simplificado entre serer humanos, deuses são ainda outro patamar.
Sou avesso á simplificação disso tudo, por natureza e ofício.
A cosmogonia de uma fé é tão rica, em simbologias, não nos cabe, empobrecer um mito com nossas mentes pequenas.
Logun Edé também passa seu tempo próximo á mãe. Em nenhuma das fontes, fui esclarecido se este tempo compreende seis meses, como lido em alguns textos, ou é uma invencionice da era dos relógios e calendários gregorianos, de alguns escritores.
Quantos dias tem um ano em suas moradas?
Particularmente prefiro uma história atemporal, sem datas apontadas.
O Príncipe faz companhia a sua Rainha, por um tempo incompreendido e é delicioso pensar no simbolismo dele, junto á uma figura feminina, no reino das águas. 
O que primeiro sempre me veio a cabeça é o mergulho nos sentimentos, na psiquê.
Não á toa, é com Oxum que Logun, muitas vezes é travestido de menina.
Este fato sempre está ligado intimamente á presença de uma figura masculina. Ou ele é dado como moça para fugir da ira de Exu por Oxum, ou para entrar no palácio de Xangô, fugindo da mata e sendo caçado por seu pai que mais uma vez se encanta e se apaixona.
O que isso tudo quer dizer á nós?
Como se aplica este ensinamento ou passa-tempo, da Medicina deste menino tão divino?
Quais são os segredos que se escondem por trás do panos que encobrem o corpo de Logun?

(fim da primeira parte)

  

Nenhum comentário: